Linha
A realidade está dividida em dois tons de azul.
Talvez um seja azul e outro verde. Ele nunca foi capaz de distinguir bem aquelas duas cores. Não lhe interessa. Não será capaz de partilhar com ninguém a percepção que tem das duas cores. Só ele saberá a cor é que vê. Ou talvez isso não interesse. Ele sabe a cor que sente.
A linha que divide as duas cores é difusa.
Ele sabe que é uma linha bem definida, a linha da curvatura da terra. Sabe que o mar acaba ali onde o céu começa. Sabe que o que pensa é uma ilusão. Sabe que o que vê o engana, que a imagem que vê na sua mente não é real e que a terra é redonda e que aquela linha não é alcançável. Fará sempre parte do seu imaginário. Sempre que a tentar alcançar ela recuará insensivel às suas tentativas.
No entanto a linha está ali à sua frente.
As cores mudam sem que ele o perceba, será enganado sem perceber. Julgando que vê o mesmo, vai sentir algo diferente.
A linha atrai-o. É nessa linha que está tudo o que procura. Tem o olhar perdido e fixo, não deu conta que a linha desaparece lentamente, muda de cor e se duplica.
A soma dos dois tons de azul é agora um branco, cinzento ou outro tom de azul.
As duas linhas afastam-se e portanto aproximam-se dele. Ganham dimensão, volume e o cinzento(ou branco?) ocupa agora o seu campo visual.
Apenas quando deixa de sentir calor é que compreende que esteve ausente tempo demais. Com uma velocidade inexplicável o nevoeiro envolveu-o, as outras cores desapareceram.
A realidade torna-se monocromática e ele compreende que está finalmente perdido.